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29 de jun. de 2015

Notas acerca da genealogia do Livro do Armeiro-Mor

Ontem me deparei com uma imagem que me soou familiar (clique na imagem para dar zoom):


Aparentemente, essa imagem foi extraída de uma lâmina colorida de uma edição antiga da Encyclopædia Britannica. A legenda da lâmina é a seguinte:
Shields of arms of "Le Roy Darrabe", "Le Roy de Tarsse" and other sovereigns, mostly mythical, taken from a roll of arms made by an English painter in the time of Henry VI.
É bem provável que nunca tenha a visto antes, mas os brasões contidos neles, sim. Como o autor da legenda bem nota, a maioria dos brasões neste armorial são imaginários, ou seja, fruto da imaginação do artista ou do editor do armorial, não de uma constatação.

Mas sabe onde eu os vi antes? No Livro do Armeiro-Mor, o mais emblemático trabalho de arte heráldica de Portugal e, talvez, um dos mais belos da Europa no período. A seguir, os fólios do Livro do Armeiro-Mor, com respectiva numeração, compilados conforme a similaridade com o armorial acima. Clique nas imagens para dar zoom.


Muitos armoriais antigos usavam outras coletâneas durante a compilação dos brasões. Conforme argumenta Steen Clemmensen, a repetição de erros ou a frequência em que alguns brasões atípicos (como os imaginários) aparecem podem ser usadas para traçar uma genealogia entre os armoriais, pois é improvável dois autores tenham inventado todos os brasões imaginários independentemente.

Se confiarmos na datação da lâmina da enciclopédia, ela é do reinado de Henrique VI (1422-1461 e 1470-1471). O Livro do Armeiro-Mor é datado de 1509, mas alguns acadêmicos argumentam que pode ter sido iniciado ainda durante o reinado de João II (1481-1495); de qualquer maneira, posterior ao armorial inglês.

Algumas dos brasões presentes no armorial inglês aparecem em fontes mais antigas, como no Atlas Catalão (c. 1375), do cartógrafo maiorquino Abraão Cresques. Os reis de Aragão costumavam presentear outros soberanos com as belas cartas náuticas de Cresques, e talvez o artista inglês tenha tido contato com um desses brindes.


Dos doze exemplos naquela lâmina, os únicos que divergem significativamente são o da Polônia, cuja representação portuguesa está mais próxima da realidade, e o de Túnis com crescentes, que guarda mais semelhanças com o do Atlas Catalão. As figuras das bandas vermelhas do penúltimo brasão foram omitidas no armorial português, possivelmente por causa de sua difícil visibilidade no inglês.

Tais evidências podem ser usadas para traçar uma genealogia do Livro do Armeiro-Mor. Estas evidências não são suficientes para declarar o armorial inglês ancestral direto do português: talvez possa ser melhor explicado como "tio" ou "irmão mais velho". Mas é quase certo, de qualquer maneira, que ambos são aparentados.

Qualquer evidência adicional é bem-vinda!

20 de jan. de 2015

São Luís (MA)

No post sobre França Equinocial, vimos que São Luís foi a capital daquela colônia; aliás, foi a única cidade brasileira fundada por franceses. Outro fato notável é que, entre 1621 e 1811, São Luís foi a capital, em ordem cronológica, do Estado do Maranhão, Estado do Grão-Pará e Maranhão e Estado do Maranhão e Piauí, que, na teoria, eram colônias separados do Estado do Brasil.

O brasão de São Luís é um dos seis que, segundo a historiografia tradicional, foram assinalados pelos portugueses a vilas ou cidades brasileiras (os outros são Salvador, Rio de Janeiro, Belém, Vila Bela de Trindade e Cuiabá). A cidade ganhou o seu em 1647, e pode ser visto abaixo:
Fonte: MEIRELES, 1994

A seguir, minha interpretação pessoal do mesmo. Eu tomei a liberdade de remover os escudos da perspectiva isométrica, e assinalei as armas da Casa de Nassau ao Reino dos Países Baixos. Ainda assim, não sei porque o brasão do Reino da França é anacrônico. Infelizmente, talvez apenas a provisão régia original possa responder a essas perguntas.
São Luís (colonial)

O brasão foi concedido em 1647, três anos após a expulsão dos colonizadores holandeses pelos próprios moradores de São Luís. A interpretação tradicional do escudo, com a balança pendendo para o lado português, é de que a justiça e o direito (jus) português preponderou (prœponderat) sobre a força militar (vis) francesa e neerlandesa.

Em 1926, São Luís ganhou seu brasão moderno. A versão atualmente utilizada pela prefeitura da cidade é a seguinte:



Minha realização do mesmo:

São Luís: De azul, sete estrela de prata arranjadas conforme a constelação de Plêiades; escudete firmado em chefe franchado: I - De verde, três flores-de-lis de ouro; II - De prata, cinco escudetes de azul em cruz, cada um carregado de cinco besantes de prata em aspa.

A constelação de Plêiades é uma referência aos escritores maranhenses que se destacaram a nível nacional, especialmente a geração de Gonçalves Dias (autor da "Canção do Exílio" e do épico I-Juca Pirama), que rendeu à cidade a alcunha de "Atenas brasileira". O escudete faz certa alusão ao brasão colonial, enquanto que sua posição é uma referência à posição da ilha de São Luís em relação ao estado do Maranhão.

Aproveitando a ocasião, gostaria de comentar o brasão da Arquidiocese de São Luís no Maranhão:


A minha interpretação para o mesmo brasão:

Arquidiocese de São Luís no Maranhão: Cortado ondado: I - De azul; II - Ondado de  prata e azul; brocante sobre o todo, três flores-de-lis de ouro.

Eu não encontrei nenhum texto sobre esse brasão, mas não é difícil interpretá-lo. Além de representar o passado colonial da ilha, as flores-de-lis podem representar São Luís da França, que nomeia a arquidiocese (apesar de não ser seu patrono). O campo ondado deve referir-se ou ao caráter insular de São Luís ou ser parlante de Maranhão (do tupi via espanhol, rio grande ou mar), ou ambos.

Comentários, adições/correções e sugestões são bem-vindos.